o carro, o autocarro e as perninhas

Com o aumento da qualidade de vida e (algum) progresso económico/endividamento as pessoas habituaram-se a ter no carro uma extensão do seu próprio corpo como se fosse um direito absoluto. A construção desenfreada de autoestradas e o mau planeamento urbano, em particular nos subúrbios, fez também com que o carro seja cada vez mais fetichizado.

Já morei nos subúrbios de Lisboa, já morei no centro trabalhando nos subúrbios e já trabalhei no centro, vivendo no centro. Vi a evolução da mobilidade na região de Lisboa na ótica do utilizador, desde meados dos anos 80. A região de Lisboa e em particular o concelho de Lisboa dispõem de uma rede de transportes muitíssimo mais eficiente da de há 25 anos. Há concerteza falhas e “ângulos mortos” na rede de transportes públicos, por isso percebo que determinados em certos percursos faça sentido o uso de carro próprio e que também em determinadas profissões o seu uso seja indispensável. Não compreendo no entanto que num percurso suburbano em hora de ponta um comboio tenha sempre lugares sentados quando na estrada que faz aproximadamente o mesmo percurso esteja entupida de carros com um utilizador apenas.

Também só se pode exigir melhores transportes quando se faz uso deles, a maior parte das vezes quem fala mal dos transportes públicos é quem não os utiliza, seja porque tem de andar 10 ou 20 minutos a pé. A minha pergunta é: o stress e o tempo passado no trânsito é uma melhoria na qualidade de vida?

Um percurso que em 1985 demoraria 60 minutos, pode demorar hoje, por via de melhores ligações e extensão do metro de Lisboa, 40 minutos. Percursos médios no centro de Lisboa demoram 30 minutos em transportes públicos.

Toda a gente tem uma vida complicada, horários a cumprir mas uma atitude cívica quer dizer que se pensa em termos de comunidade em vez de conforto próprio. A exigência de melhores transportes também só pode ser feita quando os mesmos são usados e o uso do carro próprio não empecilha a fluidez dos autocarros e elétricos.

Dito isto, só posso pensar que as políticas de transporte no concelho de Lisboa têm de ser feitos em articulação com os concelhos limítrofes, sendo estes os grandes responsáveis por falta de planeamento e na articulação de comboios com redes de transportes suburbanos. Também que o hábito do uso do carro próprio só pode ser combatido com medidas dissuasoras do mesmo, e serão sempre impopulares.

Lisboa seria uma cidade com uma qualidade de vida muito melhor se os passeios não estivessem sempre ocupados pelos carros, se muitos dos percursos de ligação fossem feitos a pé, e se o carro fosse usado com parcimónia.

6 Respostas to “o carro, o autocarro e as perninhas”

  1. A situação de Lisboa só conheço enquanto “visitante” e ando sempre de metro e comboio, o que torna impossível perder-me.
    O porto conheço bem e fora alguns “ângulos mortows” como dizes, está agora com uma rede muito razoável… ir de Gaia ao hospital de S.João não leva 30 minutos, contra o tempo indeterminado de carro e até autocarro.
    Os comboios urbanos entre Porto e Braga melhoraram imenso e estão sempre a abarrotar… de Famalicão a Porto a S. Bento são 45 minutos de paz e sossego, contra o terror da vci, da circunvalação, do estacionamento….
    Mas… (há sempre um mas…) quem não vive nas cidades está, pura e simplesmente lixado. A rede de transportes é muito, muito deficiente! Tenho de ir de carro até Famalicão para apanhar o comboio (são 6 kms, custa um bocadito à la pata); autocarro? passa com sorte um de hora a hora e n passa perto da estação, vai directo para a central que está a uma boa meia hora a pé da estação…

    Por isso, quando oiço os meninos de Lisboa ou Porto a queixarem-se q têm de ir de carro para todo o lado porque “não há condições” de usarem os transportes públicos, dá-me sempre vontade de andar à chapada!
    Uns meses de realidade do “país real” e aquilo passava-lhes logo :)))

  2. drmaybe Says:

    pois, eu bem sei que quando se sai das zonas urbanas, ou quanto mais afastado se está dos centros, pior é. Mas hoje escrevi isto exatamente por umas queixas sobre parquímetros de pessoas que não precisam de carro! E é como disse, só ouço queixas de pessoas que não se podiam queixar porque de facto não usam transportes. Todas estas pessoas que ainda usam carro pra fazer percursos diários cobertos por boas redes de transportes precisam de medidas coercivas para deixar de usar os carros, que inclusivamente impedem os autocarros e eléctricos (uma coisa assim parecida com o metro do porto – nós cá em baixo chamamos eléctrico) de funcionarem com fluidez nas horas de ponta.

    • tás aqui tás a levar na trunfa! nós tb temos eléctricos, ó lorpa! (lorpa é um morcão mais sofisticado, a bem dizer…)

      Agora… a quantidade de vezes q já vi os ditos parados à espera que venha o reboque tirar o carrinho estationado nos carris…. acontece mt na 31 de Janeiro e na Cordoaria…

      mas olha lá… tu já andaste no metro do Porto??? é que aquilo tem túneis, carago! a parte da superficie é basicamente a antiga linha de comboios q foi adaptada ao metro! Trindade era estação de comboios, topas?
      tu anda cá q eu mostro-te estações bem fundas com montes de escadas rolantes e afins, ok?

      hummmffff

      • drmaybe Says:

        ok ok! não nunca andei no metro do porto, a última vez que lá fui foi a correr, chegar à tarde e ir embora de manhã. não passei do centro. tava a brincar.
        Em Lx também é o que acontece, o pópó parado à morcão, depois passados uns 10 minutos lá saí da loja em frente uma gaja a dizer que eram só 5minutos. a outra versão é a sation wagon pra carregar os míudos dentro de um bairro histórico. fica sempre uma metade estacionada no passeio por isso impede peões e elétricos de passarem.

  3. se te portares bem, inté te levo a gaia de metro só para veres a Ribeira do cimo da ponte!
    xuac e pazes feitas🙂

  4. PauloRui Says:

    E’ uma questao de mentalidades. Por um lado andar a pe’ nem que seja 10 minutos ate’ a paragem do autocarro, e’ uma ideia que horroriza o cidadao da classe media, ja’ por si gordo e sedentario. Depois ha a questao de status, ainda se pensa que andar de carro da’ status, so’ pq os pobrezinhos nao tem carro. Ver pessoas que andam de carro para fazer 2km para… ir ao ginasio abater os kg de banha que tem pendurados na barriga e’ simplesmente ridiculo. E se fossem a pe’ e voltassem, sem entrar no ginasio??
    E e’ tambem uma questao de injustica social. Os ricos andam de carro, poluem o ar, emitem ruido, e os pobrezinhos tem que ter as varandas viradas para a auto-estrada (casas mais baratas), andar a pe’ a respirar o ar carregado do veneno emitido pelos carros, gastar mais tempo a chegar ao emprego porque o autocarro nao anda no meio daqueles carros todos ocupados por uma pessoa so’; ter que ouvir o ruido infernal dos motores que causam stress e arriscar-se a ser atropelado no meio da passadeira, porque o condutor egoista nao pode perder um segundo que seja para deixar passar o peao.
    E’ preciso olhar para o sistema de transportes segundo uma perspectiva de (des)igualdade social. Dizer que as infra-estruturas e sistema de transportes sao bons ou maus nao e’ relevante, e’ apenas um problema economico. O que e’ relevante e’: sao bons para quem? maus para quem? Todos tem que ter as mesmas oportunidades.

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